Realmente não paro de me surpreender com com este mundo. Claro, mundo no sentido de local onde o Homem se estabeleceu e estabeleceu regras para cá viver.
Então não era tudo muito melhor quando não haviam tantas regras?
Há regras para tudo! Antes, se um gajo queria qualquer coisa, tinha que a fazer. E tinha que fazer por a conseguir. Hoje basta ter dinheiro.
Vamos supor queria um par de sapatos. Chegava-me ao sapateiro e dizia-lhe: "Ó chefe, arranje-me aí uns sapatinhos à maneira, que eu depois dou-lhe umas hortaliças, ou umas merdas que lhe façam falta.". Tudo bem. O velho fazia-me os sapatos (digo o velho porque já vem de longe esta cena de os sapateiros serem sempre velhos...) e eu depois passava lá e deixava-lhe o que lhe fizesse falta. Desde que pudesse dar-lhe o que ele queria, não havia stress. Aliás, nunca havia stress porque ainda não havia essa palavra, as coisas, lá está, eram mais simples. Um gajo quando estava com aquilo a que hoje se chema stress, não dizia: "Ai, ai, estou stressado...". Não, antigamente um gajo quando estava mal dizia: "Foda-se, ando todo fodido, não sei do quê!". E ninguém perguntava mais nada. O gajo estava fodido, estava fodido, já todos sabiam que ele andava com aquela cena.
Mas voltando aos sapatos, se eu não pudesse dar ao velho o que ele queria, tinha que me desenrascar sózinho. Ou fazia eu uns sapatos, ou andava descalço que me lixava. Agora não. Se eu quero uns sapatos, vou à loja, digo que quero estes sapatos, a mulher da loja (para mim, nas lojas de sapatos, só há mulheres, é um fétiche que eu tenho...) responde: "Concerteza, são 157 euros.". Nessa altura penso para mim: "FODA-SE!!!", e bazo da loja. A grande diferença é que eu agora não vou para casa fazer eu uns sapatos, nem vou andar descalço. Não, agora eu pego no meu cartãozinho de crédito e que se lixe, alguém há-de pagar.
Se formos mesmo até ao âmago da questão, até vemos que estamos mais próximos do antigamente. Hoje quem é que usa dinheiro? Ninguém, é tudo com o cartão de plástico. Vá lá, quem é que alguma vez já viu o seu ordenado todo junto, sem ser no papelinho que sai do multibanco? Eu até acho que na realidade não há mesmo dinheiro na sociedade. Só há umas quantidades pequenas, que vão passando de mão em mão, porque o resto não passa de uns dígitos escritos em papéis. Ele é cheques, cartões, letras, ou seja, merdas para um gajo nunca ver a cor do dinheiro.
Realmente, só complicam. Não era muito melhor eu hoje em dia poder chegar ao senhor que vende aqueles ecrãs gigantes, de plasma, e dizer-lhe: "Ó chefe, arranje-me aí um ecrãzito à maneira, que eu depois dou-lhe umas hortaliças, aí três toneladas delas?". E se o homem quisesse qualquer coisa que eu não lhe pudesse dar, lá ia eu para casa fazer um ecrã ou então ficava sem ver televisão. Tudo bem. Mas isto é um jogo de trocas. Se ele um dia também precisasse de um rim, ou isso, eu bem o fodia: "Não há ecrãzinho, vais para a hemodiálisezinha!".
Não era mais simples?...
Senhor Doutor,escapou-lhe esta:
"não haviam tantas regras"
podias ter escolhido outra coisa k hortaliças..nao m admira nada que o gajo nao t queira arranjar o ecrã de plasma...
qto ao dinheiro...axo seria xato andar ai a fazer trocas..nem toda a gente tem campos de hortaliças...